{"id":191,"date":"2014-08-06T13:32:26","date_gmt":"2014-08-06T16:32:26","guid":{"rendered":"http:\/\/coisadecinema.com.br\/cineclubegr\/?p=191"},"modified":"2014-08-18T12:03:48","modified_gmt":"2014-08-18T15:03:48","slug":"zero-de-conduta-zero-de-conduite-1933","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acervo.coisadecinema.com.br\/cineclubeglauberrocha\/textos\/zero-de-conduta-zero-de-conduite-1933\/","title":{"rendered":"Zero de Conduta (Z\u00e9ro de Conduite, 1933)"},"content":{"rendered":"<p><b>Zero de Conduta <\/b>(Z\u00e9ro de conduite: Jeunes diables au coll\u00e8ge, 1933)<b><br \/>\n<\/b><em>Preto e Branco, 41 minutos, 35mm<\/em><br \/>\n<span style=\"text-decoration: underline;\">Dire\u00e7\u00e3o<\/span>: Jean Vigo<br \/>\n<span style=\"text-decoration: underline;\">Roteiro<\/span>: Jean Vigo<br \/>\n<span style=\"text-decoration: underline;\">Elenco<\/span>: Jean Dast\u00e9, Robert Le Flon, Louis Lefebvre<\/p>\n<p><b>Sinopse<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 60px;\">Numa escola francesa, alunos em regime de internato promovem uma rebeli\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Um filme libert\u00e1rio<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com os cr\u00e9ditos iniciais de <i>Zero de Conduta<\/i>, escutamos o som dos gritos e da algazarra de crian\u00e7as. Logo depois, come\u00e7a uma cantoria. Estaria a\u00ed a id\u00e9ia central do filme libert\u00e1rio de Jean Vigo? Do caos vir\u00e1 uma nova organiza\u00e7\u00e3o social, mais alegre e harm\u00f4nica?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O filme come\u00e7a com um garoto que viaja no vag\u00e3o de um trem. Ele retorna \u00e0s aulas ap\u00f3s o per\u00edodo de f\u00e9rias. No banco a sua frente, um homem dorme. O garoto est\u00e1 entediado. O seu humor muda com a chegada de um colega de escola. Juntos, eles brincam, tocam um instrumento, fumam charuto, apesar da placa que informa que o vag\u00e3o \u00e9 reservado para n\u00e3o fumantes. As regras est\u00e3o postas para serem desobedecidas. A movimenta\u00e7\u00e3o dos dois jovens n\u00e3o \u00e9 suficiente para acordar o passageiro, o que leva um deles a afirmar: \u201cEle est\u00e1 morto!\u201d. Esta \u00e9 a primeira fala do filme. Uma frase significativa. Uma crian\u00e7a declara a morte de um adulto, mesmo que esse adulto, saberemos depois, seja o novo professor da escola. O mais liberal de todos e simp\u00e1tico \u00e0 rebeldia dos jovens, mas ao estar submetido \u00e0s regras da institui\u00e7\u00e3o, n\u00e3o escapar\u00e1 da subvers\u00e3o dos alunos.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/cineclubegr\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/Zero-de-Conduta-3.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter  wp-image-194\" alt=\"Zero de Conduta 3\" src=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/cineclubegr\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/Zero-de-Conduta-3-1024x759.jpeg\" width=\"620\" height=\"459\" srcset=\"https:\/\/acervo.coisadecinema.com.br\/cineclubeglauberrocha\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/Zero-de-Conduta-3-1024x759.jpeg 1024w, https:\/\/acervo.coisadecinema.com.br\/cineclubeglauberrocha\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/Zero-de-Conduta-3-300x222.jpeg 300w, https:\/\/acervo.coisadecinema.com.br\/cineclubeglauberrocha\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/Zero-de-Conduta-3.jpeg 1200w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 esse momento, a encena\u00e7\u00e3o dos atores \u00e9 basicamente gestual e pontuada por um acompanhamento musical, bem nos moldes do cinema mudo. Vale lembrar que <i>Zero de Conduta<\/i> \u00e9 um filme de 1933, portanto, foi realizado apenas seis anos ap\u00f3s o lan\u00e7amento de <i>O Cantor de Jazz<\/i> (1927), considerado o primeiro filme falado da hist\u00f3ria do cinema. O cinema mudo \u00e9 a base da forma\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica de Vigo. E ele n\u00e3o esconde isso. Em <i>Zero de Conduta<\/i>, o cineasta faz uma refer\u00eancia a Carlitos, cria\u00e7\u00e3o de Chaplin e personagem ic\u00f4nico dessa fase do cinema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A maior parte dos acontecimentos em <i>Zero de Conduta<\/i> se passa dentro da escola, onde os meninos estudam e vivem. De um lado, h\u00e1 o movimento an\u00e1rquico e livre das crian\u00e7as. De outro, o controle paralisante dos adultos. A puni\u00e7\u00e3o, o zero de conduta, o castigo, s\u00e3o as armas dos que det\u00e9m o poder na escola: os professores, a coordena\u00e7\u00e3o, a dire\u00e7\u00e3o. Aos alunos, cabem o inconformismo e a rebeli\u00e3o contra um sistema escolar baseado na repress\u00e3o e na disciplina do corpo. Apesar do forte vi\u00e9s ideol\u00f3gico, o filme n\u00e3o \u00e9 um panfleto. Muito pelo contr\u00e1rio, as cenas e situa\u00e7\u00f5es vividas pelos personagens possuem humor e beleza. A constru\u00e7\u00e3o f\u00edlmica transita entre o realismo m\u00e1gico e o surrealismo, est\u00e9ticas que marcam o trabalho de Vigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na v\u00e9spera da rebeli\u00e3o, com a excita\u00e7\u00e3o do que est\u00e1 por vir, os garotos fazem no dormit\u00f3rio uma guerra de travesseiros. Os meninos, inicialmente dispersos pelo quarto, se juntam numa esp\u00e9cie de cortejo, o que confere um tom quase \u00e9pico \u00e0quele acontecimento. Essa \u00e9 uma das mais belas seq\u00fc\u00eancias do filme. A guerra \u00e9 declarada no Dia da Comemora\u00e7\u00e3o. Data pomposa e que conta com a presen\u00e7a de autoridades. Como armas, os meninos usam tudo o que est\u00e1 \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o, garrafas, sapatos e livros velhos. Do alto dos telhados da escola, eles atacam e fazem recuar os opressores. A vit\u00f3ria triunfal \u00e9 comemorado ao som da mesma cantoria que escutamos na abertura do filme.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/cineclubegr\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/Zero-de-conduta-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter  wp-image-192\" alt=\"MoC_VIGO_zero_de_conduite_1933_02.jpg\" src=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/cineclubegr\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/Zero-de-conduta-1-1024x752.jpg\" width=\"608\" height=\"446\" srcset=\"https:\/\/acervo.coisadecinema.com.br\/cineclubeglauberrocha\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/Zero-de-conduta-1-1024x752.jpg 1024w, https:\/\/acervo.coisadecinema.com.br\/cineclubeglauberrocha\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/Zero-de-conduta-1-300x220.jpg 300w, https:\/\/acervo.coisadecinema.com.br\/cineclubeglauberrocha\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/Zero-de-conduta-1.jpg 1280w\" sizes=\"(max-width: 608px) 100vw, 608px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Zero <i>de Conduta <\/i>\u00e9 um filme libert\u00e1rio feito por um artista de esp\u00edrito livre. A obra tem origem nas pr\u00f3prias viv\u00eancias do diretor franc\u00eas. Vigo \u00e9 filho do anarquista Miguel Almareyda, morto misteriosamente na pris\u00e3o em 1917, quando o cineasta tinha apenas 12 anos de idade. A trajet\u00f3ria e milit\u00e2ncia pol\u00edtica do pai exerceram grande influencia sobre Vigo. <i>Zero de Conduta<\/i> foi censurado pelo governo da Fran\u00e7a at\u00e9 1946.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>O cinema de Vigo<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jean Vigo realizou ao todo quatro filmes antes de morrer de tuberculose em 1934, com apenas 29 anos de idade. Apesar dos poucos filmes realizados, ele \u00e9 considerado um dos grandes nomes do cinema franc\u00eas. O primeiro deles, <i>\u00c0 prop\u00f3sito de Nice<\/i> (\u00c0 propos de Nice, 1930), curta-metragem documental de 23 minutos, \u00e9 um retrato particular da movimentada cidade costeira. Na constru\u00e7\u00e3o visual e r\u00edtmica do curta, h\u00e1 um olhar tanto po\u00e9tico quanto ir\u00f4nico sobre aquela realidade. \u00c9 por meio de uma montagem astuta que o diretor exp\u00f5e um discurso cr\u00edtico, que v\u00ea al\u00e9m do glamour e festividade da cidade. Outra caracter\u00edstica do diretor \u00e9 a inclus\u00e3o de cenas e situa\u00e7\u00f5es que conferem um ar surrealista \u00e0 obra. Por tais caracter\u00edsticas, Jean Vigo tem sido comumente associado \u00e0 cineastas de seu tempo, como Dziga Vertov e Luis Bu\u00f1uel. Em 1931, Vigo realiza o seu segundo curta, <i>Taris ou a nata\u00e7\u00e3o<\/i> (La natation par Jean Taris, Champion de France). Um tributo ao campe\u00e3o de nata\u00e7\u00e3o Jean Taris, e que surpreende pelo modo experimental e particular com que o cineasta constr\u00f3i e manipula as imagens. Mas o reconhecimento vem atrav\u00e9s de suas duas \u00faltimas obras: o m\u00e9dia-metragem <i>Zero de Conduta<\/i> (Zero de Conduite, 1933) e <i>O Atalante<\/i> (L\u2019Atalente, 1934), \u00fanico longa do diretor, realizado no ano de sua morte, e considerado por muitos como a sua obra mais importante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Uma rela\u00e7\u00e3o inusitada com o Brasil<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jean Vigo nunca veio ao Brasil, mas \u00e9 pelas m\u00e3os de um brasileiro apaixonado por cinema que o seu trabalho ganha visibilidade. Paulo Em\u00edlio Salles Gomes, um dos mais importantes intelectuais e cr\u00edticos de cinema que o Brasil j\u00e1 teve, al\u00e9m de professor universit\u00e1rio e fundador da cinemateca brasileira, dedicou-se sobremaneira a pesquisar a vida e a obra do cineasta franc\u00eas, tra\u00e7ando uma rela\u00e7\u00e3o indubit\u00e1vel entre elas. Em 1957, Paulo Em\u00edlio publica na Fran\u00e7a sua monografia sobre Jean Vigo, que foi reconhecido como o melhor livro sobre cinema daquele ano, atrav\u00e9s do Prix Armand Tallier. Sobre esse livro, escreve Fra\u00e7ois Truffaout, no <i>Cahier du Cinema, <\/i>em 1954: &#8220;Passou por minhas m\u00e3os o manuscrito do mais belo livro de cinema que j\u00e1 li. Trata-se de um livro monumental sobre Jean Vigo, sua vida, sua obra.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Por Mar\u00edlia Hughes<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Zero de Conduta (Z\u00e9ro de conduite: Jeunes diables au coll\u00e8ge, 1933) Preto e Branco, 41 minutos, 35mm Dire\u00e7\u00e3o: Jean Vigo Roteiro: Jean Vigo Elenco: Jean Dast\u00e9, Robert Le Flon, Louis Lefebvre Sinopse Numa escola francesa, alunos em regime de internato promovem uma rebeli\u00e3o. Um filme libert\u00e1rio Com os cr\u00e9ditos iniciais de Zero de Conduta, escutamos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[12],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acervo.coisadecinema.com.br\/cineclubeglauberrocha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/191"}],"collection":[{"href":"https:\/\/acervo.coisadecinema.com.br\/cineclubeglauberrocha\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acervo.coisadecinema.com.br\/cineclubeglauberrocha\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acervo.coisadecinema.com.br\/cineclubeglauberrocha\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acervo.coisadecinema.com.br\/cineclubeglauberrocha\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=191"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/acervo.coisadecinema.com.br\/cineclubeglauberrocha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/191\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":226,"href":"https:\/\/acervo.coisadecinema.com.br\/cineclubeglauberrocha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/191\/revisions\/226"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acervo.coisadecinema.com.br\/cineclubeglauberrocha\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=191"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acervo.coisadecinema.com.br\/cineclubeglauberrocha\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=191"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acervo.coisadecinema.com.br\/cineclubeglauberrocha\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=191"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}